flaw mendes

Uma série com obras tridimensionais – na maioria, feitas a partir de

embalagens, caixas e palitos de fósforo, adquiridas e consumidas por

mim, entre os anos de 2017 e 2021. Essa materialidade sofre diversas

intervenções e assume múltiplas visualidades, ora abstratas, ora

figuradas em um significado que se desdobra pelo conceito e pela

poética.

A caixa de palitos de fósforo é uma invenção relativamente recente,

que revolucionou a forma como as pessoas geram/criam fogo. Ela foi

desenvolvida no século XIX e desde então sofreu muitas alterações,

aperfeiçoamentos e até versões e instrumentos alternativos. Os palitos

e a caixa de fósforos formam um dispositivo muito simples, um leve

gesto entre esses elementos pode principiar desde o preparo de um

simples café, até um incêndio devastador; em determinadas condições,

esse objeto, pode favorecer a sobrevivência, ou não, de alguém. As

implicações (e usos) sociais desse utensílio são inúmeras a depender

da intenção do portador da luz/fogo. Desde a descoberta do elemento

fósforo e sua manipulação, a ‘domesticação’ de seu potencial destrutivo,

esse elemento adquiriu uma potência de ignição, seja ambientando

pensamentos afeitos ao existencial/filosófica/espiritual, seja dando

condições físicas/factuais/matéricas a sobrevivência do ser.

Ao longo do tempo o palito de fósforo já foi mencionado em peças

literárias e obras de arte nas mais diversas ocasiões. Por ser um objeto

tão comum é possível encontrá-lo em representações artísticas de

diversos períodos e estilos. Em resumo, o palito de fósforo (e suas

embalagens), como objeto comum do dia a dia, já apareceu em várias

pinturas, filmes e poemas/textos ao longo do tempo, servindo como

uma representação acompanhada de avanços tecnológicos, mudanças

sociais, reflexão sobre o passado e o presente entre outras tantas

abordagens possíveis.

A intenção dessas obras, dessa série, é questionar a presença e

a essência da arte em nosso dia, uma metáfora, que flameja em

paralelismo, analogia entre o instrumento palito de fósforo e a poesia

cotidiana, a arte no dia a dia. Em simplicidade poética escolho o palito

de fósforo, um objeto mínimo, frágil, ordinário, banal, cotidiano, que

pode facilmente passar despercebido, para guiar reflexões sobre a

necessidade da ‘artediária’, pensar sobre como ações mínimas (acender

um fósforo) podem desencadear e manter todo o nosso dia, iluminar

ideias, aquecer ocasiões e cultivar a energia vital. Guardar os vestígios

de situações do dia a dia pode abrir um leque de reflexões, cujo limite

depende do lume que esta metáfora “iluminalcança”.