[quarentena/abril/2020…]
Residir em pensamentos e aos poucos ir se dando conta de não estar
só. Em 2019 participei de uma residência artística, acontecia em um
final de semana por mês, na Arapuca Arte Residência, litoral sul da
Paraíba, cidade do Conde, um lugar encantado.
Pois bem, uma das primeiras reflexões que teci naquele lugar foi so-
bre os diversos insetos, bichinhos que construíam suas moradias ali, e
que orbitavam àquela residência. E o quanto todas elas eram próprias
do lugar, um amplo e mútuo pertencimento. Comecei então a foto-
grafá-las e fazer algumas correlações, inicialmente sobre o conceito
de moradia e seus diversos “sinônimos”, vi o quanto a palavra que
designa “morar em um lugar” é maleável e atravessada por afetos e
formalidades, é casa, é lar, cantinho, ou domicílio, residência, muqui-
fo. O sabor do apreço molda a forma semântica.
Por outro lado, as intempéries sociais também coabitam moradias e in-
cidem na morfologia das palavras. E expande o m2 de uma construção
à dimensões cartográficas que formam comunidades, favelas, inva-
sões; ou condomínios, conjuntos habitacionais, loteamentos. Quase
nunca se pensa em quem (ou o que) teve que desalojar, despertencer
dalí. A ausência de lugar também nomeia aqueles cujas paredes já não
são garantia de proteção, desabrigados, refugiados. Morar é dinâmi-
co, instável e requer afeto. O mundo é uma casa.
Essas reflexões são a porta de entrada para a exposição inResidência,
que acontece com três suportes principais: a fotografia, o livro e a
instalação.
São, aproximadamente, 15 fotografias de ninhos/abrigos de peque-
nos animais e insetos existentes na área que envolve a casa. Desse
conjunto desdobra um livro-objeto com desenhos lápis grafite dos
ninhos/abrigos, com eventuais informações, ora técnicas ora poéti-
cas; e também serve como mote para a instalação, que consiste em
organizar objetos artificiais (insetos, vasos e plantas de plástico) num
determinado lugar na galeria.
A ideia é fazer da galeria uma casa para (re)abrigar o que, possivel-
mente, teve que ser desalojado para se estabelecer/erguer o lugar/
galeria. Desta maneira a representação da vegetação e dos abrigos/
ninhos torna a presenciar, com outra materialidade, o que outrora era
seu lugar.