flaw mendes

ORGÂNICOS

Vista geral da Exposição

Foto: Flaw Mendes

“Orgânicos” de Flaw Mendes

 02/Junho – 03/Julho de 2023 

Na Usina Cultural Energisa 

    Soube certa vez que galhos são “conjunto de riachos que se reúnem, nas cabeceiras,
para formar um rio”. Riachos áridos, temporários, que criam riscos profundos no chão. A Carla Madeira e o Ailton Krenak tem razão… Tudo é rio.
    Gosto desse pensamento curso d’água que flui e é corrente de mar, mas é também rio seco com potência de sertão, enchentes epistemológicas. Um rio-mar metamorfo cuja ausência presente transborda e denuncia inundações nos ciclos de transformação da arte-vida. E é isso que o artista Flaw Mendes faz: drenar paisagens. Como uma estratégia às avessas – em que o escoamento das ideias mais parece uma sangria de sentidos, transmutando estados impossíveis.

     Pois, ao chegar à exposição do Artista Flaw Mendes, que esteve em cartaz entre os dias 02 de junho e 03 de julho de 2023, na Usina Cultural Energisa, em João Pessoa, PB – nos deparamos com um imenso rio sem água que atravessa o espaço expositivo. Esse rio pedregoso apresenta galhos compridos que apontam e revelam frutos incomuns: extremidades pontiagudas, afiadas, que os constituem em um dos instrumentos mais populares e revolucionários da humanidade: o lápis.

Galhapis

Foto: Everton David

    Flaw Mendes com seus “Galhápis” pensa rios que traçam e modelam fluxos de ideias, atravessando papéis. Rios que inscrevem e escrevem sua escrita riacho. 

     A exposição “Orgânicos” de Flaw Mendes é um convite para adentrarmos em sua floresta ancestral, um vasto campo de visões – em tons terrosos – de órgãos que já foram e continuam sendo música para os ouvidos, entoando os sons e sentidos de árvores extensas de terras férteis e ávidas de aprendizagens. 

     A priori, a exposição mais parece uma mata desidratada – que ao ser lapisdada, enverniza e aponta caminhos que nos reconduz à escrita, sobretudo de quem nós somos. Uma escrevivência afetada, ponta de lança, que se (des)afia sempre no extremo das discursividades. A série intitulada orgânicos, que dá nome à exposição, é uma das inúmeras ramificações de seus galhos poéticos, de onde já brotaram “O que escreve tua escrita” e “Incomum”, recentes mostras anteriores. Dessa forma, é importante saber que essa pesquisa-caminho que espreita a organicidade, a origem das coisas e suas desnaturezas é um interesse latente em sua trajetória lexical, onde o verbo é ação na construção de palavras e devires que rodeiam suas imagens mais íntimas.

Vista geral – lado direito

Foto: Flaw Mendes

     A exposição apresenta objetos e esculturas que quase sempre remetem ao lápis ou fazem alusão aos instrumentos de inscrever ou marcar papéis sociais, desenhos e dis-cursos de vida. 

   E pensar sobre quais cursos da sua vida o tem trazido até aqui é, sobretudo entender os mecanismos e modus operandi de sua força criativa: a inquietude. Grande colecionador de abismos e horizontes – carrega e junta – literalmente, pensamentos orgânicos que cruzam seu caminho e o fazem submergir. A cada galho coletado quase que diariamente, em tempos circulares – há um trato e uma observação contínuos dessa sutileza: lixar, limpar, esfregar, polir, pintar, dourar, escrever, emoldurar, secar, queimar, empilhar… armadilhas reais carregadas de acasos conceituais.

Campo Minado

Foto: Flaw Mendes

     A natureza aqui é palco da complexa e sofisticada relação entre os seres humanos e outros organismos vivos na colonização das histórias e seus modos de nos fazer desistir. Escritas-apagamentos. Lápis-genocidas. Trituradores de sonhos. Essas obras em sua maioria são feitas a partir de ga-ti-lhos de madeira para repensarmos nossa identidade – com minas de cera ou de grafite, dentre outros materiais que nos fundam; 

     Em Campo minado, por exemplo, nos deparamos especialmente com muitos lápis entranhados nesses galhos que parecem atravessar as paredes, como narrativas encrustadas que (des)esperam florescer em meio aos conflitos de fronteiras invisíveis da linguagem; incêndios que podem ser riscados.

Discurso

Foto: Everton David

      Há, ainda, outras derivações composicionais, como uma pequena arapuca (Discurso) disposta no chão à espera de prender alguém; um apontador de madeira, troncos-lapiseira (ou Foto: Flaw Mendes seriam lapiseiras de tocos?) molduras-resistência (verdadeiras Instituições que versam sobre a permanência das estruturas¹ ), textos indecifráveis (Manifesto), e teoria(s) da cor e do mundo (CMYK, etc.), revisitadas na história da arte em tons – de pele, diretrizes e paletas com narrativas extraordinárias. 

    São obras forjadas por hibridismos e ambiguidades de costumes orgânicos, profundamente arraigados em armações e amarrações formais – arcabouços dos signos textuais, que buscam transcender as nossas relações com a natureza e os saberes que nunca se esgotam.

Foto: Everton David

Foto: Flaw Mendes

Detalhe obra Campo Minado

Foto: Flaw Mendes





Conceição Myllena Fernandes Rolim 

Artista e Crítica de arte

¹ PAULINO, ROSANA. A permanência das estruturas, 2017. MASP Impressão digital sobre tecidos, recorte e costura; Dimensão: 93 x 110 cm; Obra vista no contexto da exposição Histórias afro-atlânticas, 2018




REFERÊNCIAS KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022 

MADEIRA, Carla. Tudo é rio. Ed. Record, 2021 

OSTROWER, Fayga. Criatividade e Processos de Criação. Petrópolis: Vozes, 2014. 

PASSERON, René. A poiética em questão. In: Porto Arte. Porto Alegre, v. 13, n. 21, p.09-15. 2004. 

REY, Sandra. “Da prática à teoria: três instâncias metodológicas sobre a pesquisa em poéticas visuais”. In: Porto Arte. Porto Alegre, v. 7, n. 13, p.81-95. 1996.

ORGANICS

General view of the exhibition

Foto: Flaw Mendes

“Orgânicos” (Organics) by Flaw Mendes

02/June – 03/July 2023

At Usina Cultural Energisa

I once learned that branches are “a set of streams that meet at the headwaters to form a river”. Arid, temporary streams that create deep grooves in the ground. Carla Madeira and Ailton Krenak are right… Everything is a river. I like this thought – a watercourse that flows and is a sea current, but is also a dry river with the power of the sertão (backlands), epistemological floods. A river-sea, metamorphic, whose present absence overflows and denounces inundations in the cycles of art-life transformation. And that is what the artist Flaw Mendes does: drain landscapes. As a reverse strategy – where the draining of ideas resembles a bleeding of meanings, transmuting impossible states. For, upon arriving at the exhibition by artist Flaw Mendes, which ran from June 2 to July 3, 2023, at Usina Cultural Energisa in João Pessoa, PB – we are faced with an immense river without water that cuts through the exhibition space. This stony river presents long branches that point to and reveal unusual fruits: sharp, pointed extremities that constitute them as one of the most popular and revolutionary instruments of humanity: the pencil. 

Galhapis (Branch-pencils) 

Foto: Everton David

Flaw Mendes, with his “Galhápis” (Branch-pencils), thinks of rivers that trace and shape flows of ideas, crossing through papers. Rivers that inscribe and write his stream-writing. The exhibition “Orgânicos” by Flaw Mendes is an invitation to enter his ancestral forest, a vast field of visions – in earthy tones – of organs that once were and continue to be music to the ears, intoning the sounds and meanings of vast trees from fertile lands eager for learning. At first, the exhibition looks like a dehydrated forest – which, being penciled, varnishes and points to paths that lead us back to writing, above all to who we are. An affected escrevivência (write-living), a spearhead that (un)challenges itself always at the extreme of discursivities. The series entitled Orgânicos (Organics), which gives the exhibition its name, is one of the countless branches of his poetic limbs, from which “What writes your writing” and “Incomum” (Uncommon) – recent previous shows – have already sprouted. Thus, it is important to know that this research-path that lurks at organicity, the origin of things and their denaturations, is a latent interest in his lexical trajectory, where the verb is action in the construction of words and becomings that surround his most intimate images.

General view – right side

Foto: Flaw Mendes

The exhibition presents objects and sculptures that almost always refer to the pencil or allude to instruments for inscribing or marking social roles, drawings, and life-discourses. And thinking about which courses of your life have brought you here is, above all, understanding the mechanisms and modus operandi of his creative force: restlessness. A great collector of abysses and horizons – he carries and joins – literally, organic thoughts that cross his path and make him submerge. With each branch collected almost daily, in circular times – there is a continuous treatment and observation of this subtlety: sanding, cleaning, rubbing, polishing, painting, gilding, writing, framing, drying, burning, stacking… real traps loaded with conceptual chances.

Campo Minado (Minefield)

Foto: Flaw Mendes

Nature here is the stage for the complex and sophisticated relationship between human beings and other living organisms in the colonization of stories and their ways of making us give up. Writings-erasure. Genocidal pencils. Dream crushers. These works are mostly made from wooden triggers to rethink our identity – with wax or graphite leads, among other materials that found us; In Campo Minado (Minefield), for example, we are confronted especially with many pencils embedded in these branches that seem to pierce through the walls, like encrusted narratives that (un)hope to flourish amidst the conflicts of language’s invisible borders; fires that can be scratched out. 

Discurso (Discourse) 

Foto: Everton David

There are also other compositional derivations, such as a small arapuca (trap) (Discurso) placed on the floor waiting to catch someone; a wooden sharpener, trunk-pencil holders (or would they be stump pencil holders?), resistance-frames (true Institutions that speak of the permanence of structures2 ), indecipherable texts (Manifesto), and color and world theories (CMYK, etc.), revisited in art history in skin tones, guidelines and palettes with extraordinary narratives. These are works forged by hybridisms and ambiguities of organic customs, deeply rooted in formal armatures and bindings – frameworks of textual signs – that seek to transcend our relationships with nature and knowledges that are never exhausted.

Manifesto / Institutions

Foto: Everton David

Foto: Flaw Mendes

Detail of the work Campo Minado (Minefield) 

Foto: Flaw Mendes

 

 

Conceição Myllena Fernandes Rolim 

Artist and Art Critic

²PAULINO, ROSANA. A permanência das estruturas [The Permanence of Structures], 2017. MASP. Digital print on fabrics, cut and sewing; Dimensions: 93 x 110 cm; Work seen in the context of the exhibition Histórias afroatlânticas [Afro-Atlantic Histories], 2018.

 

 

REFERENCE


KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022 

MADEIRA, Carla. Tudo é rio. Ed. Record, 2021 

OSTROWER, Fayga. Criatividade e Processos de Criação. Petrópolis: Vozes, 2014. 

PASSERON, René. A poiética em questão. In: Porto Arte. Porto Alegre, v. 13, n. 21, p.09-15. 2004. REY, Sandra. “Da prática à teoria: três instâncias metodológicas sobre a pesquisa em poéticas visuais”. In: Porto Arte. Porto Alegre, v. 7, n. 13, p.81-95. 1996.